Valéria França

Atualmente está em curso uma pesquisa com 36 pacientes de Alzheimer, que tem como objetivo analisar a eficiência do tratamento com THC (tetrahidrocanabidiol, substância da Cannabis que dá o chamado “barato”). Coordenado pelo professor de Medicina e Biociência Francisney Nascimento, da Unila (Universidade Federal da Integração Latino-Americana), o estudo foi inspirado em um caso experimental onde a substância teve resultados “excepcionais”, segundo o autor, a matéria é da Folha

O paciente é Delci Ruver, 77,  um agricultou simples, que passou a maior parte da vida em Planato, interior do Paraná, cidade com pouco mais de 14 mil habitantes. Ele sempre trabalhou em uma colônia da região, com a mulher, Maria Ruth, 75. Os dois formam um casal forte e saudável, mas que viu a vida virar de ponta cabeça, quando Delci começou a esquecer de coisas pequenas, porém importantes.

“Ele esquecia a porteira do sítio aberta. Quando pegava uma ferramenta, não sabia onde tinha largado. Também tinha problemas de equilíbrio”, diz Maria, que quando o marido saía sozinho ficava aflita por causa do açude da propriedade. Os médicos diagnosticaram o caso como Alzheimer.

“Eu estava ruim mesmo. Saía para a cidade e, ao chegar no centro, não sabia para onde ir”, conta ele. “O neurologista mandou um remédio, que não me fazia muito bem. Estufava minha barrida e eu continuava com problemas de memória.” A neta, a farmacêutica Ana Martins, 28,  aluna de Nascimento, pediu ao avô fosse até Foz do Iguaçu, onde mora.

“Toda manhã ele tinha um branco. Não conseguia saber onde estava ou qual era o dia. Trocava o nome da família. Por conta das confusões, não o deixávamos mais sozinho”, conta a neta que cresceu junto dos avós. Quando entrou no mestrado, Martins queria trabalhar com canabinoides. “Resolvi então que iria tratar o meu avô com Cannabis. Para isso, aprovei o estudo no comitê de ética na Unila.

“O extrato tinha uma concentração 8 vezes maior de THC do que CBD. Delci começou tomando 500 microgramas. Em seguida, aumentamos para 750 microgramas, mas ele piorou.  Passamos para 1 miligrama e observamos outra piora do quadro. Voltamos e estabelecemos o tratamento em 500 microgramas”, conta Martins.

Quando foi submetido a um teste cognitivo, Delci passou para o escore de um idoso saudável em apenas dois meses de tratamento. Aos poucos, Martins retirou toda a medicação convencional do avô e os avanços permaneceram estáveis. Hoje, ele tem uma vida normal.

Martins, ao centro, com os avós. Foto: Álbum de família/Divulgação